Clube de Cultura, o mais novo tombamento
Depois de um longo tempo de análise, o Clube de Cultura, desde a semana passada, é, por tombamento municipal, patrimônio cultural de Porto Alegre. Foi fundado em 31 de maio de 1950, “por um grupo de judeus porto-alegrenses de orientação laico-progressista e filiação política de esquerda”, como consta do processo que encaminhou o seu reconhecimento como patrimônio histórico. O coordenador da Memória Cultural, da Secretaria Municipal de Cultura, Luiz Antônio Custódio, afirma que os tombamentos se justificam pelos valores históricos, culturais, etnográficos ou arquitetônicos dos bens. O do Clube de Cultura deveu-se ao seu valor histórico. “Ali nasceu, por exemplo, o Clube de Cinema Humberto Mauro, que deu origem à Casa de Cinema e ao Polo de Cinema do Rio Grande do Sul”, lembra Custódio.
O coordenador da Memória Cultural frisa que a importância do Clube de Cultura não está no seu prédio, mas na sua ideia. “O mesmo aconteceu no tombamento do Teatro de Arena”. O mais novo patrimônio histórico de Porto Alegre teve um grande impacto sobre a cultura gaúcha, devido “à sua atividade e às ideias que circularam e ainda circulam por ali”, diz Custódio.
Do Clube participavam também, como sócios, importantes nomes da cultura gaúcha, que não eram de origem judaica, como o médico Rubem Maciel, o artista plástico Vasco Prado e o poeta e historiador Guilhermino César. A entidade contou com apoiou também, ao longo de sua história, de intelectuais como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Henrique Scliar, Aparício Torelli (Barão de Itararé), Carlos Scliar, Vinícius de Morais, Elis Regina, Danúbio Gonçalves, Moacir Scliar e Caio Fernando Abreu. O documento que instruiu o tombamento do Clube informa que a história da entidade se divide em quatro etapas, marcadas “por fatores históricos externos”. A primeira, de 1950 a 1957, quando foi inaugurada a sede, se caracteriza pelo posicionamento do Clube “como espaço de práticas sociais e culturais”. A segunda etapa, de 1957 a 1964, consolidou o local como “centro cultural de relevância nacional”, havendo uma abertura para todos os indivíduos e segmentos da sociedade. A etapa seguinte coincide com o período da ditadura (1964-1985) e é denominada de “período de sobrevivência”, já que a instituição era vista pelos militares como de esquerda. Os sócios se afastaram e o Clube enfrentou problemas econômicos. Neste período, “passaram a frequentar o lugar cidadãos de diversas origens étnicas e filiações políticas que compartilhavam com os fundadores os mesmos princípios e que tacitamente se opunham à Ditadura”.
A última fase começa em 1985, com a redemocratização do país. Uma época em que o “Clube não é mais um reduto dos judeus progressistas, porém mantém a mesma linha de atuação traçada por seus idealizadores e continua sua sobrevivência, não contra a repressão política e sim contra uma ameaça maior: a banalização da cultura e as formas de socialização atuais caracterizadas pela falta de compromisso do indivíduo com a sociedade e com a construção de um mundo mais digno e justo”.
Nubia Silveira (texto) e Flavia Boni Licht (consultora)
http://portoimagem.wordpress.com/2011/07/31/patrimonio-historico-restaurar-custa-tres-vezes-mais-do-que-conservar/
Thursday, October 06, 2011
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